CRIAÇÃO
DE TILÁPIAS EM TANQUE-REDE.
O Brasil
reúne condições extremamente favoráveis à aquicultura, apresentando grande
potencial de mercado, clima favorável, boa disponibilidade de áreas,
disponibilidade de grãos para a fabricação de rações animais e invejável
potencial hídrico. São 5,3 milhões de hectares de água doce em reservatórios
naturais e artificiais, 8.000 km de zona costeira, além de uma extensa rede
hidrográfica, que podem ser potencialmente aproveitados na produção de
organismos aquáticos. O cultivo de peixes em tanque-rede e gaiolas é a
alternativa de investimento de menor custo e maior rapidez de implantação, que
possibilitará um adequado aproveitamento destes recursos hídricos e a rápida
expansão da piscicultura industrial no país.
O sistema
de criação de peixes em tanques-rede ou gaiolas é considerado com um sistema
intensivo com renovação de água contínua, é uma das formas mais intensivas
de criação atualmente praticadas e tem se tornado popular devido ao fácil
manejo e rápido retorno do investimento; além de ser uma excelente alternativa
para a produção de peixes em corpos d’água onde a prática da piscicultura
convencional não é viável. A piscicultura em tanque-rede também possibilita
o aproveitamento de ambientes aquáticos já existentes (oceanos, rios, grandes
reservatórios, açudes entre outros).
A
denominação de tanques-rede é conferida às unidades de cultivo que utilizam,
para contenção dos peixes, materiais que se comportem como uma rede na hora da
despesca. Geralmente dão usadas redes de multifilamento revestidos ou não de
PVC, com malhas de abertura diversas, com ou sem nós, ou outros materiais
resistentes à corrosão, como telas de alumínio ou inox, ou mesmo de ferro
galvanizado resvestido de PVC, trançadas no formato de alambrado, que podem
apresentar comportamento retrátil como uma rede, dependendo do sentido de
orientação em que foram arrumadas na confecção do tanque-rede.
Já as
gaiolas são fabricadas com material de contenção rígido, geralmente telas de
aço inox ou ferro galvanizado, revestidos ou não de PVC. Telas plásticas também
são usadas na contenção de peixes em gaiolas com armação de madeira, barras
de ferro ou alumínio.
O sistema
de criação de peixes em tanque-rede e gaiolas apresenta as seguintes
vantagens:
- utilização
de massas de água inaproveitáveis para a piscicultura intensiva;
- produtividade
elevada;
- controle
eficiente da população e da sanidade;
- facilidade
na despesca;
- menor
investimento inicial;
- tecnologia
relativamente barata e simples sendo aplicável a pessoas com poucos
recursos;
- aplicável
à maioria dos ambientes aquáticos dispensando o alagamento de novas
terras;
- facilidade
de movimentação e recolocação dos peixes;
- otimização
da utilização da ração melhorando a conversão alimentar;
- facilidade
de observação dos peixes melhorando o manejo;
- possibilidade
de uso ótimo da água com o máximo de economia;
O
papel fundamental dos tanques-redes é confinar os peixes enquanto permite a
maior troca de água possível com o ambiente à sua volta. Essas funções são
influenciadas principalmente pelo volume do tanque-rede , seu formato e o
material utilizado em sua construção.
O
tamanho dos tanques-rede e gaiolas podem variar desde 1 a 1000m³. Entretanto, o
cultivo em tanques de menor volume (1 a 4m³) é mais vantajoso do ponto de
vista produtivo e econômico. O motivo é que sob uma mesma condição , a
renovação completa de água no interior dos mesmos é maior, garantindo a
manutenção da qualidade de água para os peixes que estão ali confinados.
Geralmente esse tanques são classificados de acordo com sua capacidade volumétrica
e produtiva com PVAD (pequeno volume e alta densidade).
Quanto
ao formato, podem ser quadrados, retangulares, cilíndricos, hexagonais, etc. Em
geral, as formas quadradas e retangulares beneficiam a passagem da corrente d’água
de forma homogênea pela superfície lateral do tanque. Nos tanques cilíndricos,
há uma tendência de desvio de parte da água que incide sobre as laterais .
Outro aspecto importante é a orientação dos mesmos em relação à direção
da correnteza, dessa forma, devem ser dispostos no ambiente de maneira que a água
de baixa qualidade que sai de um tanque-rede não entre em outro logo a seguir.
Os
materiais utilizados nas malhas e estruturas de sustentação e flutuação dos
tanques-rede e gaiolas devem apresentar as seguintes características:
- boa
resistência ao esforço mecânico e à corrosão;
- resistência
mínima à passagem de água;
- material
deve ser o mais leve possível e de baixo custo;
- material
não abrasivo e que não cause injúrias aos peixes;
- fácil
manuseio e reparos.
Quanto
maior for a abertura das malhas, melhor o renovação de água no interior dos
tanques-rede. O tamanho das malhas deve ser o maior possível, permitindo
minimizar os problemas de colmatação (entupimento pela deposição de material
orgânico e crescimento de algas e outros organismos sobre a malha). O uso de
malhas menores que 13mm aumenta o problema com a colmatação, exigindo limpezas
periódicas ou a substituição das malhas, aumentando consideravelmente o custo
operacional, podendo inviabilizar a produção em grande escala.
Além
de necessitar de estruturas para flutuação, como por exemplo bombonas plásticas,
os tanques-rede devem ser cobertos para que os peixes não pulem pra fora e,
também , para que seja evitado o acesso de animais aquáticos e pássaros
predadores. As tampas dos tanques-rede e gaiolas devem ser opacas para reduzir a
entrada de luz solar direta (raios ultravioleta) sobre os peixes e também
atenuar o estresse causado pela presença de pássaros e outros animais sobre a
gaiola.
Outra
estrutura auxiliar do tanque-rede é o comedouro, que varia conforme o tipo da
ração utilizada. Geralmente a ração extrusada é a mais utilizada e que dá
melhores resultados. Este tipo de ração, além de apresentar maior
digestibilidade e aproveitamento pelos peixes, facilita a observação do
consumo, permitindo minimizar as perdas de ração e ajustar de forma mais
precisa a taxa de alimentação.
Devido
ao seu menor custo, alguns empreendimentos em tanque-rede ainda utilizam rações
que afundam. No entanto, estas rações possuem baixa estabilidade na água e
dificultam uma adequada observação do consumo e das sobras. Adicionalmente,
apresentam digestibilidade inferior comparadas às rações extrusadas
flutuantes. Estas características negativas reduzem o aproveitamento e aumentam
as chances de desperdício das rações, prejudicando consideravelmente o
crescimento e a conversão alimentar dos peixes.
A
ração utilizada no cultivo em tanques-rede deve ser nutricionalmente completa,
suprindo todas as exigências em nutrientes dos peixes, pois eles estão
submetidos a uma condição única de adensamento, interação social intensa e
não são capazes de buscar outras áreas de maior conforto em situações de
inadequada qualidade da água. Os peixes confinados também apresentam acesso
restrito ao alimento natural disponível no ambiente.
A
taxa de alimentação diária dos peixes (% do peso vivo) é definida em função
da temperatura da água, da espécie e tamanho dos peixes e do tipo de ração
utilizada. Também a frequência do arraçoamento varia em função do tamanho e
estágio de desenvolvimento dos peixes, podendo variar de 1 a 12 vezes por dia.
Muitas
espécies de peixes vêm sendo cultivadas comercialmente em tanque-rede, mas
algumas respondem melhor à esse sistema de criação, como por exemplo a tilápia
do Nilo, Oreochromis niloticus , que introduzida no Brasil em 1971 em açudes do
Nordeste difundiu-se para todo o país. Originária dos rios e lagos africanos,
é a segunda espécie de peixe mais criada no mundo, isso porque apresenta
características importantes para o cultivo, tais como:
- precocidade
e facilidade de reprodução e obtenção de alevinos;
- possibilidade
de manipulação hormonal do sexo para obtenção de populações
masculinizadas;
- boa
aceitação de diversos tipos de alimentos;
- conversão
alimentar entre 1 a 1,8;
- bom
crescimento em cultivo intensivo;
- rusticidade,
suportando o manuseio intensivo e baixos índices de oxigênio dissolvido;
- resistência
a doenças;
- carne
branca de textura firme, sem espinhos, de sabor pouco acentuado e de boa
aceitação.
A
tilápia do Nilo é uma espécie precoce que apresenta excelente desempenho em
diferentes regimes de criação. Em sistemas extensivos, apenas com adubação
dos viveiros, alcança produtividades de até 3.500 kg/ha/ano, em densidades
entre 8.000 e 10.000 peixes/ha. Em regimes semi-intensivo, com renovação de água
(10 L/seg/ha) e rações de boa qualidade, a tilápia nilótica chega a produzir
15.000 kg de pescado/ha/ano, em densidades de 20.000 a 30.000 peixes/ha. No
cultivo de tilápias em gaiolas a produção por ciclo pode variar de 30 a 300
kg/m³ dependendo do tamanho da gaiola ou tanque-rede utilizado. Em gaiolas de
pequeno volume pode-se produzir de 200 a 300 kg de tilápia /m³. Esses valores
devem estar próximos à capacidade suporte em gaiolas de baixo volume. Para
definir esse limites geralmente são utilizados os valores de capacidade de
suporte e níveis de arraçoamento estabelecidos para cultivos em viveiros
tradicionais. Para pequenos açudes e viveiros utilizados com gaiolas, a
biomassa econômica deve ficar entre 2.500 a 3.500 kg/ha quando a renovação de
água for limitada e o arraçoamento deve ser entre 30 e 40 kg/ha/dia.
As
densidades nas quais as diferentes espécies podem ser estocadas é um
importante fator na determinação do custo de produção em relação ao
capital investido e depende também das condições ambientais, fluxo de água e
nível tecnológico empregado na criação. Portanto é necessário determinar a
densidade de estocagem ideal para cada situação a fim de se obter os melhores
resultados.
Além
desses aspectos abordados, é necessário que se faça o manejo sanitário
preventivo, além de biometrias frequentes e manejo da qualidade da água
utilizada.
O
uso da técnica de criação de peixes em tanque-rede visa em aumento da
produtividade por área de cultivo e consequentemente maior lucratividade. Esse
sistema começa a ser explorado no país a nível comercial, porém não existem
manejos definidos de criação e utilização de materiais adequados e testados
pela falta de pesquisas e parâmetros zootécnicos.
Tendo
em vista esses fatores, a empresa Belgo Mineira Bekaert (BMBA), juntamente com a
Embrapa Arroz e Feijão desenvolveram um projeto de validação técnica, com o
objetivo de determinar parâmetros zootécnicos para a criação de peixes em
tanque-rede (principalmente na região de Cerrado), utilização de pequenas e
grande áreas alagadas na criação de peixes, desenvolvimento de um sistema de
cultivo de peixe em tanque-rede, além da validação técnica das telas
Fortinet da BMBA na confecção de tanques-rede.
O
experimento foi conduzido durante 6 meses, com o cultivo de tilápia (gênero Oreochromis)
sob diferentes densidades de estocagem e que culminou com a realização de um
dia de campo na Embrapa para a divulgação das tecnologias empregadas e a
apresentação do novo produto da BMBA.
Zootecnista
Luciane Messias Sperandio (CRMV-GO 0358/Z), aluna de especialização em
Piscicultura na UFG, estagiária da Embrapa Arroz e Feijão - GO.
luciane@cnpaf.embrapa.br