A ÁGUA NA AQÜICULTURA
REFLEXÕES / cap. 02
Louvado sejas, Senhor, pela irmã Água.
Ela é muito humilde, útil, preciosa e
pura!
"Cântico das criaturas" São Francisco de
Assis
Helcias B. de Pádua(biól.CFB00683/01/D) helcias@ifxbrasil.com.br / tel.0xx11-3078.1120
A água, estritamente definida como um composto puro, deveria
exibir características químicas e físicas previsíveis, pois as propriedades
de um composto puro são tão dignas de confiança que podem ser usadas para
identificação de uma amostra desconhecida.
Logicamente neste contexto, não haveria sentido discutir
"qualidade de água, água de origem ou de uso particular", porém,
como seu comportamento mantém relação íntima e dependente com o sistema,
meio ou ambiente que a contenha, variações devem ser esperadas, com fortes
influências sobre os possíveis seres vivos, ali presentes.
Até certo ponto, a melhor água para aqüicultura
dulcícola é a de origem subterrânea (nascentes/poços) devendo-se, no
entanto, considerar os componentes do solo onde esteja implantado o chamado lençol
freático, porém, provavelmente pobre em produtividade primária. Esta água é
praticamente livre de formas nocivas que possam ocasionar enfermidades nos
organismos, ou mesmo fazerem deles, vetores de espécies patogênicas ao ser
humano, a não ser que ocorra contaminação por algum motivo, como a presença
próxima de fossas negras ou mesmo através de contato no percurso das águas.
Reafirma-se aqui as diferenças conceituais e práticas
entre o que seja contaminação e poluição:
A "contaminação " é causada por elementos
que lançados na água, no ar, no solo, etc. , torna-os diferentes e nocivos,
como um veneno ou um ser patogênico, prejudicando o substrato, ou o entorno, em
um tal grau que crie ou ofereça riscos reais à vida, à saúde. O elemento
contaminante é ativo e deve ser encarado como um problema de saúde pública,
tendo como exemplo as substâncias tóxicas e organismos patogênicos.
A "poluição" é considerada como qualquer
modificação nas características do meio e ou ambiente, capaz de torna-los
nocivos à saúde, à natureza, à segurança e ao bem-estar, prejudicando o
equilíbrio natural. A nocividade da poluição é de caráter passivo, causada
pelo agente chamado "poluente", através da prática irracional e
desfavorável como, por exemplo, o uso excessivo de fertilizantes químicos e o
lançamento de águas servidas em um lago ou corpo receptor.
Segundo a UNESCO/ONU, 10% dos recursos hídricos estão
poluídos e que apenas 6% das águas de todo planeta servem para consumo
humano, baseado em monitoramento de 240 rios e 43 lagos de 59 países. Também
cerca de 90% das águas consideradas como potáveis estão localizadas na
Antártica.
Este autor, em um trabalho de interpretação dos resultados
obtidos pela CETESB/SP durante o ano de 1980, dos 92 pontos de amostragem de água,
distribuídos por 29 bacias hidrográficas do Estado de São Paulo, apenas
14,13% se apresentavam como de qualidade "boa" para a preservação de
organismos aquáticos, outros 45,65% foram considerados como "aceitáveis"
e os restantes 40,22% como "inaceitáveis".
Do total das águas continentais existentes no nosso
planeta, 29 milhões de km3 estão nas calotas glacias; 8,4 milhões
de km3 são de águas subterrâneas; 200 mil km3 compõem
os rios e lagos. A Terra tem 75% de água ou seja 1,4 bilhão de km3
e de tudo isso, 97% esta nos oceanos, 2% congelada e apenas 1% podendo ser usada
pelo homem nas suas mais diversas atividades. Desse total de água (boa ou não)
disponível na Terra, 69% é utilizada pela agricultura, 23% pelas indústrias e
8% utilizada em ambientes domésticos.
Lembramos que 3/4 da superfície do nosso planeta é ocupada
por água, sendo apenas 5% de água doce.
*Sabe-se que os organismos aquáticos dependem do ambiente
para obtenção dos elementos "essências", mas também estão
expostos aos considerados "não essenciais", por isso, o mesmo
deverá oferecer favorável estabilidade, embora sofra interferências devido a
sua própria cinética, ou até por ações tidas "antropúrgicas" Não
aplicamos aqui o termo "antropogênico", por este estar
etimologicamente associado ao estudo da origem do homem e não às alterações
ocasionadas pelo homem.
Elementos "essências" são aqueles que sem
os quais não há desenvolvimento normal. Eles são divididos em macronutrientes
e micronutrientes, podendo estar presentes na água ou no solo, em maior
ou menor quantidade. No solo, não se encontram em estado puro, mas sim
combinados como sais mais ou menos complexos
Os macronutrientes são: o nitrogênio, o potássio,
o cálcio, o fósforo, o enxofre e o magnésio, este último, com influência
na síntese de clorofila. A função fisiológica do nitrogênio é na formação
de proteínas, ácidos nucleicos e coenzimas. Sem nitrogênio, não se formariam
as paredes celulares e por tanto não existiriam os organismos. O fósforo tem
importância como constituinte dos ácidos nucleicos e coenzimas e na fosforização
oxidativa do ADP (adenozina difosfato) e ATP (adenozina trifosfato). O carbono,
o oxigênio e o hidrogênio são tão importantes como o nitrogênio e fósforo,
porém não são considerados verdadeiros nutrientes, pois os compostos orgânicos
e o oxigênio dissolvido normalmente cobrem estas demandas.
Já os micronutrientes , tidos como elementos traços,
são o cloro, o bório, o bário, o manganês, o cobalto, o zinco, o
cobre, o níquel, o ferro e o molibdênio, sendo de importante presença
quando das reações celulares Alguns autores consideram o potássio, o
magnésio e o cálcio, como micronutrientes.hbpádua
As águas se caracterizam, principalmente, pelos dissolvidos
que favorecem a presença ou não dos organismos aquáticos, assim ;
* Cálcio: participa nas reações químicas que
permitem estabilizar a qualidade das águas, além de ser o componente da formação
dos ossos.
* Fósforo: geralmente presente na forma de fosfato
orgânico e inorgânico, sendo um nutriente indispensável, porém quando em
excesso pode provocar proliferação exagerada das algas, ocasionando desequilíbrio,
pôr exemplo, no oxigênio dissolvido.
* Gás sulfídrico, Ácido sulfúrico e sulfetos,
originários da ação de certas bactérias sobre a matéria orgânica em
processos sem a presença de oxigênio, portanto não podendo estar presente,
quando de uma água de boa qualidade, para organismos aquáticos.
* Compostos nitrogenados: apresentam-se sob diversas
formas e com atuação e comportamento dependendo da cinética das águas,
(processos metabólicos), ou seja, o gás nitrogênio, pôr exemplo, é inerte
para os organismos aquáticos, mas o gás amônia, proveniente da decomposição
bacteriana de proteínas, é tóxico, assim como o nitrito, relativamente estável,
predominando quando de um desajuste do ciclo de nitrogênio, como em pH mais
alcalino. Já o nitrato, a princípio não tóxico, quando em maiores concentrações,
por não se volátil, pode se tornar muito tóxico, dependendo do pH da água e
ou então também sofrer redução para nitrito e amônia.
hbpádua
* Dióxido de carbono, Gás carbônico = CO2 : substância
de importância como fonte do carbono na fotossíntese, porém quando em excesso
torna-se tóxica para os organismos natantes, além de apontar baixo pH do meio
1 Também, nos sistemas aquáticos,
tem-se as chamadas ações antagônicas (neutralizadoras da toxicidade) e sinérgicas
(reforçadoras), como por exemplo o cálcio, em concentrações naturais
oferece ação neutralizante sobre a toxicidade do sódio, do magnésio, do potássio,
do chumbo, do zinco e cobre. Por outro lado, alguns desses metais mais tóxicos,
como o zinco e o cobre, quando juntos, reforçam a ação tóxica um do outro.
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Entretanto, os aquicultores em geral, e até conceituados pesquisadores da área,
recaem seus interesses tão somente à biologia e no comportamento das espécies
habitantes deste ou daquele sistema aquático, sem conseguir obter ligações
necessárias com as peculiaridades do biótopo, ou seja, com os recursos de
natureza orgânica ou inorgânica que mantém a vida.
Na aquicultura, o monitoramento das águas é obrigatório,
devendo ser realizado com a utilização desde os simples e diversos kit(s)
encontrados no mercado, como através de determinações laboratoriais. A
periodicidade das análises será determinada pelo tamanho do empreendimento e
pelo grau da qualidade das águas utilizadas e resultantes.