O
QUE SÃO ESSES FILMES, COÁGULOS, FLOCOS E FILAMENTOS AMARRONSADOS NAS ÁGUAS DA AQÜICULTURA
(1)Helcias Bernardo
de Pádua
É muito comum que
as águas utilizadas na aqüicultura, captadas de nascentes superficiais ou
mesmo mais profundas apresentem quando contidas ou conduzidas através de
canaletas a formação de uma massa, grumos e/ou filamentos amarronsados
aderidos nas paredes, depositadas no solo ou mesmo soltos na água.
Com grande
certeza, essas formações não passam de resultantes de acúmulos de certas
bactérias que além de conferir odor e sabor característico as águas, causam
impregnação e dificuldade nas trocas gasosas a nível de filamentos
branquiais, etc..
As ferrobactérias
(bactérias do ferro) e as sulfobactérias constituem dois grupos morfológicos
e fisiológicos heterogêneos de microrganismos, de grande interesse para a
Microbiologia Ambiental no que se refere à alteração das qualidades organolépticas
da água e problemas de incrustações nos condutos, etc.. As primeiras são
bactérias quimiolitotróficas, que oxidam o íon ferroso a íon férrico para
obtenção de energia e depositam o hidróxido férrico (Fe(OH)3), em
suas secreções mucilaginosas. Entre elas estão também incluídas algumas
bactérias heterotróficas que não oxidam o ferro, mas atacam sais orgânicos
de ferro, liberando o íon férrico, que também é precipitado. Já as sulfobactérias
podem ser quimioliototróficas- Thiobacillus sp-, que obtém energia
através da oxidação de compostos de enxofre reduzidos (oxidantes), podendo
estar em ambientes fortementes ácidos e outras em condições alcalinas e as
sulfobactérias quimiorganotróficas, que obtém energia por respiração anaeróbica,
reduzindo sulfatos ou outros compostos redutíveis de enxofre a H2S.
Os gêneros das
ferrobactérias mais comuns que causam problemas quando presentes na água são:
Sphaerotillus, Leptothris, Crenothrix e Gallionella, Os 3 primeiros gêneros
se caracterizam pelo arranjo filamentoso de suas células, que são envolvidas
por uma bainha, daí receberem também a denominação de bactérias com bainha.
As bactérias do gênero Gallionella são unicelulares, retiformes ou
encurvadas e segregam um filamento longo (apêndice), em forma de fitas entrelaçadas,
a partir do hidróxido férrico depositado na célula.
h.b.pádua
A presença de
ferrobactérias em águas de abastecimento dos tanques de criação, dos laboratórios
e dos lagos, pode ocasionar aspecto, sabor e odor desagradável (decorrente da
decomposição bacteriana) e também estão associadas com a tuberculização e
corrosão dos possíveis condutos.
Em águas
superficiais poluídas, bactéria do gênero Sphaerothilus, em especial a
S. natans formam tufos de filamentos que, além de apresentar odor e
aspecto desagradável, causam problemas as redes de despescas, aos filtros, aos
monges, as canaletas, etc. formando flocos imensos de bactérias. Em tanques com
a presença excessiva do organismo ocorre a formação de uma espécie de lodo
flutuante "bulking" , tal fenômeno é decorrente da má aeração,
sobrecarga de nutrientes orgânicos e volátil, aliados a própria característica
(composição férrica) do solo.
Pode-se resumir
assim o ciclo desse fenômeno na água: O oxigênio (O2) dissolvido
na água, entra em contato com o elemento ferro Fe+++ e as ferrobactérias
ali existentes, formando o hidróxido de ferro 2Fe(OH)3. São essas
bactérias (Gallionella sp, por exemplo) que na presença de oxigênio,
oxidam o íon ferroso (Fe++) a íon férrico (Fe+++), película
aderente, liberando energia e depositando o hidróxido férrico (Fe(OH)3 amarronsado.
Em sistemas aquáticos
com excesso de enxofre e ambiente anaeróbio, ocorre a reação com o 3H2S-sulfeto,
(formado a partir da presença do enxofre, hidrogênio e bactérias sulfato
redutoras) , resultando em 2FeS-sulfato férrico, mais S(enxofre) mais 6H20
(água). Essas bactérias sulforedutoras, são incapazes de crescer mesmo na
presença de traços de oxigênio. A temperatura ideal para o seu crescimento
esta em torno de 25 a 30ºC, pH entre 5.5 - 9,0, potencial redox(Eh) severo, em
torno de -100mV. e pressão atmosférica elevada,(até 1000 atm.). São na sua
maioria as dos gêneros Desulfovibrio e Desulfotomaculum, sendo
habitualmente encontradas no solo, nas águas de poços, em lamas marinhas e de
água doce, em condições altamente anaeróbias e associadas à presença de
sulfatos. Sua capacidade de crescer em ambientes altamente salinos faz com sejam
freqüentes em áreas de salinas e estuarinas. h.b.pádua
(1) Biólogo-Especialista em "Qualidade
das águas"
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