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Tucunaré

OS PEIXES SEMPRE ADOECEM E MORREM NO INVERNO ?

Quem são os causadores dessas manchas, tufos esbranquiçados/ amarronsados, sangramentos e feridas no corpo desses organismos aquáticos?

Tenho recebido consultas, chamados urgentes e até mesmo sido solicitado para dar consultorias, em maior freqüência, no período de inverno (precisamente entre junho até setembro), sempre em dias ou após alterações bruscas na temperatura ambiente. E olha que não é só agora; desde a época de biólogo na CETESB/SP quando por vários anos seguidos fomos "acionados" (esta é a palavra chave) para atender casos de mortandade de peixes em lagoas/lagos/tanques de manutenção, em espaços públicos (exemplo típico, até 1986 nos lagos do Ibirapuera/SP e em outros lagos em parques paulistanos).

Tais ocorrências propiciaram, na época, relatórios e até publicações em suplementos de jornais e revistas especializadas, na área. Se fez até um quadro com a distribuição das ocorrências em todo o estado de São Paulo, apontando como vencedores as pisciculturas e lagos de pouca profundidade.

Então, os peixes por serem, em sua maioria, organismos pecilotérmicos, ou seja, apresentam a temperatura corpórea bem próxima a temperatura ambiente, com diferenças de no máximo 1ºC (lembrar que esses nossos peixinhos, são animais que sempre estão em movimento), do seu entorno, podendo subir e descer, passear pela lâmina d‘água, a qualquer momento e dependendo das suas necessidades, principalmente com relação ao instinto e necessidade de obter alimento. Pois é, significa que seu metabolismo, ou a intensidade de suas reações orgânicas, acelera com a elevação da temperatura do meio e diminui com o seu decréscimo.

Em locais de ocorrência excessiva de flutuações na temperatura ambiente, é recomendável que a profundidade dos tanques, seja aumentada em aproximadamente 0,50m, ficando assim a coluna d’água com maior altura, o que ocasionará menores maiores intervalos entre as possíveis variações de temperatura na mesma, permitindo ou dando tempo para que a temperatura do corpo do peixe acompanhe tais situações.

Ai que esta o princípio da questão: esses peixes em tanques ou lagos rasos no decorrer e por necessidade, estão se expondo à camadas diferentes quanto ao grau de calor da água, com mudanças bruscas de temperatura tanto na água como no seu corpo. Tal fato traz conseqüências diretas nos seus processos vitais, como respiração, crescimento, reprodução, ou seja na sua saúde. Resultado: estão, quando de mudanças bruscas nas características do meio, mais aptos a sofrerem enfraquecimento fisiológico e maior disponibilidade aos ataques de fungos, bactérias, protozoários, etc., esses parasitas que enfraquecem ainda mais os peixes, causando infeções(fungos/bactérias) e/ou infestações(protozoários), desde e principalmente na parte externa do peixe(tegumento) e até em estruturas internas.

Esses organismos indesejáveis se encontram normalmente na água ou no entorno dos peixes, nas suas mais variadas formas de desenvolvimento e, encontrando situações ou campo propício para se instalarem nos peixes. Não só uma, mas várias ocorrências podem aparecer, num único exemplar de peixe. Já verifiquei, por inúmeras vezes a ocorrências de 3 ou mais (até 8) infestações/infeções em um só exemplar. Haja,,, não é!

Os de ocorrência provável nessas condições são:

  1. Ichthyophthirius multifiliis,(ectoparasita): protozoário ciliado, mais conhecido pelo aspecto que o peixe afetado apresenta, como : "doença dos pontos brancos" que aparecem bem visíveis no dorso, chegando a cobrir boa parte do corpo e nas barbatanas, estas quase sempre fechadas. Quando em estágio avançado, esses pontos formam agrupamentos de aspecto esbranquiçados e/ou amarelo/marrom, a respiração é acelerada e aí os peixes se esfregam nas partes duras do tanque (pedras, encostas, etc.), causando irritações no tegumento, portas abertas para outros tipos de infestações/infeções. Esse protozoário, o conhecido Ichthyo, ataca os peixes após permanecer e ser liberado na forma de esporos(fase livre/água). No peixe atinge a fase adulta e se desprende, voltando à água; aí formam novos esporos (resistentes) resultando até 1000 novos parasitas. Esse esporo liberado ataca novamente o peixe quando este se apresenta mais debilitado, por ação da má qualidade da água, das mudanças bruscas de temperatura ou outro tipo de estresse, como movimentação e submissão em longas viagens e nos transportes.
  2. Chilodonella sp (ectoparasita): protozoário ciliado que causa manchas pouco maiores (transparentes-esbranquiçadas) de até 3cm de diâmetro (confundi-se com o ichthyo) no tegumento/pele do peixe. Os sinais também são parecidos com outros ectoparasitos, ou seja respiração problemática e o comportamento do peixe em se esfregar em partes mais duras, propiciando campo aberto para mais infeções/infestações diversas.
  3. Trichodina sp : protozoário ciliado (ectoparasita) que se instala no tegumento do peixe para obter alimento (bactérias), mas que ocasiona incomodo, obrigando-o a se esfregar, estremecimento e intervalos menores de abertura e fechamento das barbatanas. Também proporciona campo maior para outras infeções por bactérias, etc. O seu diagnóstico é difícil a olho nu, sendo confundido pelos sinais parecidos no comportamento dos peixes.
  4. Costia sp : protozoário flagelado (ectoparasita), reconhecido pela forte e consistente turvação da pele/tegumento, com sangramento nas feridas e enfraquecimento dos peixes.
  5. Saprolegnia sp : fungo que aparece rotineiramente , infectando peixes em água de baixa ou inadequada qualidade, p.ex., com excesso de matéria orgânica em decomposição. Esses fungos penetram profundamente na musculatura do peixe, chegando a expor as estruturas rígidas internas ao tecido. Mudanças bruscas de temperatura e prolongados períodos de frio, estresses (lutas, transportes, etc.) também favorecem a instalação desse fungo. Seu aspecto no peixe é como " tufos de algodão branco" ou mesmo amarronsados, este último aspecto advindo do acúmulo de partículas como do lodo orgânico, etc.
  6. Columnaris sp : bactéria que ocasiona infecção em áreas maiores no corpo do animal/peixe, cobrindo-o com uma camada de material semelhante à algodão (confundi-se com o fungo Saprolegnia), chegando a ocasionar destruição das barbatanas. Pode aparecer também na cabeça do peixe, em forma de pústulas esbranquiçadas. Os fatores que favorecem a sua presença são: alterações na qualidade da água e mudanças bruscas de temperatura.
  7. Pseudomonas/Aeromonas : bactérias que infectam os peixes, ocasionando manchas avermelhadas e inflamações na pele, barbatanas e área anal, chegando a ulcerações horríveis com perda de escamas e sangramento no tecidos. Suas presenças são favorecidas pelos mesmos fatores apontados acima.

Obs.: Como se percebeu, o melhor mesmo é a prevenção: trabalhar sempre e adquirir peixes saudáveis; conhecer, acompanhar e manter sempre uma boa qualidade física/química e biológica da água. Peixes bem alimentados, antes da chegada da época de frio, são resistentes. Lembrar que os nossos organismos aquáticos(considerados "de água quente"), diminuem em muito a sua alimentação durante o inverno.

Quando se necessitar de tratamento, este autor costuma recomendar a adição de sal grosso na água, contido em sacos de ráfia, com 20 kg cada, amarrados na boca e lançados na água a cada 50m de margem e mantidos presos a margem seca por corda; é interessante aplicar posteriormente, também, o calcário dolomítico, sem antes caracterizar-se o pH, as durezas e alcalinidade das águas.

Outros tratamentos são recomendados em literatura especializada, seja: a solução de verde malaquita, ou de azul de metileno, ou de sulfatos de cobre/magnésio, ou mesmo de formalina e até a utilização de soluções mistas de algumas dessas substâncias, lembrando sempre que tais substâncias podem causar problemas de toxicidade, etc. Suas indicações e aplicações devem sempre ser oferecidas sob orientação de técnico responsável; por isso aqui não se coloca tabelas e concentrações para aplicação dessas últimas substâncias.

Logicamente outros tipos de infestação (por protozoários, vermes, larvas, crustáceos, etc.) e infeções (por fungos, bactérias) podem aparecer nesses nossos organismos aquáticos, causadores de debilidades, má aspecto no peixe (atenção pesqueiros) e mortes. Mas o importante é se lembrar sempre que o conhecimento e controle: na introdução de novos exemplares; da qualidade f/q/b das águas de origem; do acompanhamento da água de uso; da presença de outros organismos; de um adequado manejo dos tanques, tanto no aspecto físico, na entrada e vazão da água, desinfeção periódica, ou seja, o cuidado e carinho do empreendedor para o seu empreendimento, evitará com certeza, em muito essas desagradáveis surpresas.

Referências bibliográficas:

ALCON – Seu novo aquário/Fazendo certo desde o início, Camboriú/Br, I.C.D.Alcon Ltda, s/d ; dist. grat.,56p.ilust.

Eysink, G.G.J.;Bertoletti, S.A E.P.; Pádua. H.B.de; - Caracterização ambiental dos lagos do Parque Ecológico do Tietê/João Khun. São Paulo/Br, CETESB, 1985, 21p.

Galli, L.F & C.E.C. Torloni – Criação de peixes, Porto Alegre/Br, Centaurus, 1982, 119p.ilust.

Pádua, H.B de – Qualidade das águas na aqüicultura, Apost./2001:São /Br, H.B.P.Ass. Téc. Aqüicultura, 2001; 40p.

Pádua, H.B. de – Os peixes também morrem de frio, Supl. Agrícola/OESP São Paulo/Br, Ag./1984

Roberto, Sérgio; Eysink. G.G.J.; Pádua, H.B. de – Mortandades de peixes no Estado de São Paulo, Rel. Anual, 1986; São Paulo.CETESB/Br, 1987.27p.

SERA – Doenças dos peixes tropicais, Sera Manual, Heinsberg/Germany, s/d; dist. grat. 27p.ilust

(*) Helcias Bernardo de Pádua - biólogo C.F.B.00683/01-D
tel. 0xx11-3078-1120

"H.B.P." -  Assessoria  Técnica - Aqüicultura
Organismos Aquáticos  e  Qualidade  das  Águas
(amostragem, análise, monitoramento, interpretação,
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